ENSAIO NUMERO 26
(Resenha de livro de Eduardo Giannetti)
Trata-se de tema fascinante com múltiplas abordagens e que o autor trata com propriedade.
Algumas abordagens possíveis seguem e são:
Abordagem biológica, abordagem espiritual, filosófica, tecnológica e simbólica compreendendo aspectos da ciência, da filosofia, da religião, ou ainda de certo legado ou herança.
A vontade de não perecer, de ter continuidade tendo consciência da finitude, e comum aos seres humanos, com consciência da vida limitada, e de que o nascimento e a morte são as verdades absolutas, se bem que administráveis no tempo finito.
1 Impedir o envelhecimento e a morte exige cuidados com a saúde, boa alimentação, prática de exercícios físicos, e manter uma vida social, e de amigos.
2 Transferir uma pessoa para um ambiente tecnológico ou digital
3 Espiritual ou religioso e filosófico. Acreditar na alma imortal, no céu, no inferno e no purgatório, filosófica, platônica, alma imortal e corpo atemporal.
4 Pelas ações, filias, filhos e familiares, como lembrança e influência, como exemplo, Sócrates, Beethovem, Mandela, todos continuam moldando o mundo.
A busca da imortalidade revela o medo da finitude, tanto como o anseio por significado, vivendo não para sempre, mas de modo que valha a pena
Quando um amigo de Einstein morreu, ele escreveu para a esposa: “Ele partiu deste estranho mundo pouco antes de mim. Isso não quer dizer nada. Para nós, que acreditamos na física, a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma teimosa ilusão.”
Existem quatro formas de se perenizar:
1 Pela ciência, tentar viver mais anos utilizando a medicina, a vida saudável, os exercícios físicos e os relacionamentos saudáveis. Isto tudo prolonga e melhora a qualidade da vida.
2 Pela crença, acreditando na reencarnação, trata do sentido religioso ou filosófico, e onde a inexistência de provas não é prova de inexistência
3 Deixar legado para o futuro, que pode ser tanto uma obra, exemplos de vida, mensagens que permanecem vivas na memória de descendentes e amigos. Quando visitamos amigos em Curitiba a minha esposa Eva teria comentado “na minha casa não permito que a comida seja desperdiçada”, e esta mensagem ficou gravada na memória de nossos amigos, anos depois e mesmo depois de minha esposa nos deixar.
4 O presente absoluto, que pode ser tanto místico como artístico e representar momento importante e digno de ser vivido.
O morto-vivo de Goya e um caso interessante. O famoso pintor espanhol oitocentista Francisco de Goya talhou uma gravura na qual um homem morto, um cadáver em estado avançado de decomposição, se curva ligeiramente da posição horizontal e escreve “nada”, como mensagem aos viventes. A mensagem do cadáver de Goya pretende ser de um artista vivo que transmite por intermédio de um morto, a descrença do artista com relação ao que existe depois da morte, Nada. O artista faz o cadáver se erguer do mundo dos mortos para transmitir aos vivos a sua mensagem. Por outro lado, o não ser, é inconcebível enquanto se é. Cada pessoa pode ser o centro do universo para si mesma, e para a humanidade, ele não passa de uma parte insignificante dele.
Uma outra história bonita e o cadáver adiado de Titonos, filho do Rei de Troia. A mitologia grega conta a saga de Titonos, jovem de grande beleza que desperta o amor de Eos, a deusa da aurora. Apaixonados, eles se mudam para a Etiópia, onde tem dois filhos. Preocupada com a condição de mortal de Titonos, e com a perspectiva de sobreviver a ele na eternidade, Eos intercede junto a Zeus para que conceda a seu amado a prerrogativa da eternidade. Zeus atende ao pedido, mas como Eos esquece de solicitar seja inclusa a cláusula de o manter jovem, para sempre, Titonos começa a envelhecer, e vai se tornando cada vez mais tíbio, enrugado e esquecido com o passar dos anos. No início Eos cuida dele, fornece alimentação de ambrosia, e fornece belas roupas. Mas quando Titonos não consegue mais mover-se reduzido a uma carcaça inane e corpo esvaziado de vida, ela por fim decide tranca-lo num quarto vazio e escuro, abandonando o esposo a um balbuciante murmúrio, ao eterno silêncio, e o ancião fica condenado a nunca morrer. Para Titonos, conclui o Hino Homérico a Afrodite, Zeus decretou um mal imorredouro, a velhice, que é pior ainda, que uma horrível morte.
O meu cunhado Henrique para rejuvenescer fazia tratamento numa clínica suíça onde recebia injeções supostamente de células jovens de determinados animais num processo prolongado, de difícil comprovação, mas no qual acreditava.
Na religião existe o estranho consolo da certeza de que não há certeza. E a limitação da ignorância humana. O sonho de viver para sempre, na memória e no coração dos viventes, que na realidade pode ser conseguido normalmente em até duas gerações, após este período e com raras exceções a memória e o legado dos que se foram, fica se apagando lentamente até nada ficar da lembrança. Mesmo assim, enquanto viventes desejamos construir algum tipo de legado, material ou simbólico, para além de sua finitude biológica. Renegada qualquer esperança supra terrena, onde encontrar alento. Viver não é necessário, o que é preciso e construir sentido
A vida é uma dádiva neste ou no outro mundo, e a alma que olha para dentro, vê o envelhecimento, o decapitar dos órgãos, a alma de dentro para fora, se sente jovem, e detentora de se ver ativa.
Outra estória bonita relatada no livro. A Escolha de Ulisses. A Odisseia de Homero narra as peripécias de Ulisses, um dos heróis gregos. Na sua viagem de volta a ìtaca, sua terra natal. Tendo sofrido um naufrágio depois de muitas aventuras, Ulisses passa cerca de sete anos, de um total de nove da jornada de retorno, numa ilha isolada, do extremo ocidente mediterrâneo, onde o sol se põe. A única habitante da ilha era a deusa Calipso, aquela que se oculta e oculta aos demais, uma ninfa de grande beleza que o resgata, acolhe-o e logo se apaixona por ele. Movida pelo desejo de conquistar o amor de Ulisses e desposá-lo, a deusa se desdobra em cuidados, mimos e carinhos na tentativa de retê-lo na ilha, mas de fazer que ele no final esqueça de Ítaca e da amada esposa, Penelope, que havia deixado à sua espera antes de partir para a guerra. Nos primeiros tempos de vida em comum Calipso e Ulisses, mantêm uma relação erótica, porém assimétrica e embora façam as refeições juntos, ela come néctar e ambrosia, como os deuses, ao passo que ele, pão e vinho, como os mortais. Mas quando Calipso percebe que Ulisses sente-se cada vez mais nostálgico e solitário na ilha, sem propriamente vivo, nem morto, oculto no silêncio e na escuridão como dirá Telémaco, seu filho, ela resolve oferecer lhe uma proposta irrecusável, afim de que se case com ela e abandone o desejo de regressar. Se decidir ficar, ela promete que Ulisses terá garantida a imortalidade dos deuses olímpicos: viver para sempre no brilho da juventude, sem amargar o decrépito da velhice. O herói, contudo, recusa a oferta. Ficar na ilha ao lado de Calipso significaria não só abandonar Penélope e todos aqueles que lhe eram caros, mas aceitar uma espécie de morte esculpida e vida, que o condena ao eclipse na memória das gerações futuras, destituído da gloria de herói guerreiro, mergulhado na escuridão de um covarde e anônimo esquecimento, ainda gozando do privilégio da vida eterna e seria caso único na literatura a recusa da imortalidade. Mortal imortal, ou imortal condenado ao absoluto oblívio. Se Ulisses tivesse ficado na ilha, em vez de escolher sua condição mortal, é difícil imaginar que Homero houvesse criado a sua grandiosa epopeia, imortalizando-o. E, se assim fosse, quem hoje saberia quem foi o herói da Odisseia, ou que ele um dia existiu?
Na forma de uma conclusão, os últimos parágrafos do livro.
Olhos nos olhos da imensidão. Sou uma pessoa irrisória de uma espécie bizarra, num país absurdo, de um continente acanhado num planeta tacanho, (ora gelado, ora prestes a ferver) banhado por um sol medíocre, dentro de uma galáxia minúscula, num universo macabro, entre infinitos mundos possíveis, todos igualmente gratuitos e condenados ao eterno retorno. E, no entanto, existo. E resisto. E da trama que de conta de meu papel— e de todos— no drama cósmico, não desisto. Lenta virgula rastejante, trago em mim, todo o assombro do mundo.
Impossível resumir toda a magnitude do livro em poucas páginas, por isso recomendo a leitura.
Luis Gaj
Fevereiro de 2026

