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MUNDO EM CONFLITOS

Luis Gaj··8 min de leitura
Mundo em Conflitos

Assistimos perplexos a muitos conflitos, a muita destruição, ao desespero de populações que vivem anos sofrendo bombardeios, perseguições e dificuldades para ter uma vida tranquila e civilizada.

Na maioria dos conflitos, transformados em ação agressiva, prevalece a incompetência da política, e da negociação, para dar fim à situação criada.

Tal o caso do conflito Rússia contra Ucrânia, que já dura desde 2022.

O tema dos conflitos possui vários desdobramentos, e uma complexidade imensa de questões. Possui uma dinâmica natural que permite descrever a sua evolução, e o seu desenvolvimento gradativo, e simplificaremos falando em conflitos latentes e numa escala de vários níveis, conflitos possíveis, inicio de conflito, conflito escalando para um nível superior, conflito agressivo e conflito explosivo, ou guerra.

Um exemplo de conflitos latentes, encontra-se o conflito da China com a república divergente de Taiwan, e também o conflito entre a Coreia do Norte, e a Coreia do Sul, que em ambos os casos procura-se uma relativa estabilidade, mas manobras e exercícios militares, demonstram o perigo de transformação em invasões, ou domínio militar.

Também temos como conflito latente o conflito entre os Estados Unidos e a China, em questões econômicas, como as relações comerciais, na tecnologia, e na área militar. Também como conflito latente, o conflito entre a Otan e a Rússia. Rússia querendo anexar a Ucrânia, e Otan fornecendo armas para Ucrânia se defender e até atacar a Rússia.

Nos casos de conflitos armados, e em estado de quase guerra, além da Rússia, temos o caso dos Estados Unidos contra Iran, com o desdobramento econômico, com a obstrução do estreito de Ormuz, que onera o transporte de produtos, atingindo as economias mundiais.

Muitos outros conflitos existem pelo mundo e são menos noticiados, mas não menos importantes, e também afetando profundamente a vida dos habitantes, e mencionando alguns temos: Sudão em guerra civil, que já provocou estima-se 100 mil mortos, o golpe militar de Mianmar em 2021 e o confronto com diversos grupos armados, conflito na República democrática do Congo, com grupos rebeldes, em combates localizados mais no leste, e provocando deslocamentos em grande quantidade. Temos também conflito no Iêmen, sem solução definitiva, e ainda na região do Sahek (Mali, Burkina Faso e Níger) com lutas com grupos jihadistas, e crise humanitária.

Também é preciso mencionar o importante conflito entre Israel e os diversos grupos palestinos, na Cisjordânia, e em Gaza, mas também no Líbano, com grupo financiado e armado pelo Iran

Como pode ser percebido são muitos os conflitos e a impressão e de que não terão fim, devido a interesses geopolíticos, econômicos, ou de natureza pessoal, onde ambição e desejo são fortes fatores decisórios.

Importante destacar outro país em situação de conflitos, mesmo que parciais e localizados. Trata-se da Nigéria, o país mais populoso da África, com 239 milhões de habitantes, e uma das economias mais importantes do continente, especialmente em petróleo e gás natural.

Na década de 1960, a Nigéria precisava, depois de ficar independente da colonização britânica, construir o seu futuro, mas rivalidades internas provocaram uma guerra que provocou um milhão de mortos. Possui enormes desafios, na governança, na segurança, e com elevada corrupção. E uma república com um governo central cujo presidente e Bola Tinubu, e 36 províncias, e existem conflitos, entre as províncias e o governo central. Realiza eleições, após o governo militar até 1999. Np Nordeste conflitos com a insurgência de grupo extremista ligado ao Estado Islâmico e no Noroeste e Centro, conflitos com grupos armados com sequestros e ataques às populações, possui milhões de deslocados pelo pais e um dos motivos, é a existência de 250 grupos étnicos, e 500 línguas, praticadas pelo pais, mesmo com o inglês como língua oficial. Apesar das perdas humanas, dos deslocamentos, e da miséria nessa época, o mundo ficou indiferente e pouco foi noticiado sobre a Nigéria.

Em 1966 Biafra declarou a sua independência e isto provocou forte reação do governo central, que isolou a região, suspendeu o envio de alimentos e medicamentos e provocou a morte de entre 1 a 3 milhões de habitantes, não tanto pela guerra interna, e principalmente pela fome, pela desnutrição, e pelas doenças provocadas pelo isolamento, até que em 1970 Biafra capitulou. Cabe destacar que o mundo silenciou a este massacre, e somente mais tarde, foram divulgadas algumas notícias sobre os acontecimentos.

Vamos nos deter um pouco na análise do conflito no Sudão, pais do nordeste da África, com guerra civil, que já dura mais de três anos, desde abril de 2023 entre as forças armadas do Sudão SAF

Lideradas por um general, e um forte grupo paramilitar e seu líder. Ambos os principais personagens estavam unidos em 2019, por ocasião da queda do ditador Oman Al Bashir, mas logo depois se desentenderam pelo poder territorial, e pelo poder nas minas de ouro, e nas riquezas. Existem ainda rivalidades étnicas, em Darfur, e países de fora, que por interesses específicos, apoiam uma ou outa parte, colocando lenha no conflito, de guerra civil, que tem provocado imenso deslocamento de pessoas, fugindo dos ataques e também devido a fragilidade do poder, do estado constituído.

Em três anos de guerra, o exército recuperou parte da capital do país Cartum, enquanto o grupo paramilitar, e forte no Oeste e em Darfur. Não existem oportunidades e negociações em andamento para uma solução política e negociada, e a crise humanitária se acentua, especialmente provocando miséria e fome, perseguições, muitos milhares de deslocados, e refugiados e destruição de infraestrutura, como hospitais e escolas. Os Emirados Árabes, Egito, Rússia, e outros países, estão envolvidos nesta guerra civil, com muito pouca informação, apesar da crise humanitária, enquanto na guerra da Ucrânia o pais tem uma forte estrutura, recebe muito apoio de países europeus, e ainda temos a República Democrática do Congo, que vive uma crise que já dura décadas de violência contra civis

Mas não somente casos localizados em regiões, entre países, e geopolíticos existem. No mundo micro das famílias, no mundo dos condomínios residenciais, no mundo dos negócios entre empresas e no mundo da política, em todas as esferas, existem conflitos, como vemos também entre órgãos públicos, entre executivo e legislativo, entre justiça e governo, entre jornais e entre comunicadores de toda espécie.

Dois casos de conflitos pessoais.

Tínhamos a Eva e eu, certa vez, um casal de amigos, judeus alemães, imigrados durante a perseguição da segunda guerra, no regime nazista. Era de origem de uma família que tinha se integrado na comunidade alemã, durante várias gerações, mas que mantinha as tradições judaicas na diáspora, primeiro na Bolívia, que foi o único pais que recebia imigrantes fugitivos da guerra, e depois no Brasil. Tiveram um casal de filhos que foram crescendo, estudando, se profissionalizando, e namorando. Acontece que miscigenados com o povo brasileiro, o filho começou a namorar com uma moça católica, que, no entanto, tentou se converter ao judaísmo. Mesmo nesta circunstância, e sendo o pai muito radical, não aceitou que o filho aprofundasse sua relação om esta moca, e mais tarde se negou a aceitar ela como noiva no casamento por amor, do seu filho. Casamento consumado, tiveram filhos nos anos que se seguiram e as relações com os sogros ficaram tensas. A mãe das crianças e esposa rejeitada pelos sogros, e com um casamento feliz, e uma família constituída, proibiu que seus filhos tivessem contato com esses avôs, e orientou seus filhos a um relacionamento amoroso com seus pais.

Os pais do noivo e sogros da noiva, tendo tido netos, sentiram profundamente a limitação criada pela intolerância do pai nos anos do noivado, e tentaram aproximação sem sucesso. este um caso de conflito não resolvido por intolerância. Na fase inicial do conflito, deveria ter havido um respeito aos desejos e escolha do filho, e nunca uma postura agressiva de não aceitação, contra a vontade do filho adulto.

Mesmo na situação criada, poderia ser encontrada uma solução, mas teria que haver uma atitude humilde e até de pedido de desculpas, para permitir uma reconciliação da família.

Um segundo caso de conflito surgiu num condomínio em Campos do Jordão, onde um dos moradores exigia execução de quatro quadras, duas poli esportivas e duas de tênis, mesmo com poucos moradores no início. O incorporador tinha construído já duas quadras e aguardava a oportunidade de ter mais moradores, o que levaria mais um a dois anos, para construir as outras duas. O argumento do incorporador, era que as quadras teriam no futuro muita manutenção e consequentemente despesas para os moradores e que isto teria por isso, que ser gradativo. O atrito estava instalado e as discussões acaloradas não paravam, e as assembleias, que deveriam se pacíficas, se transformaram em belicosas.

Orientado por psicólogo, o incorporador resolveu convidar a beligerante para um café da manhã, que foi realizado numa padaria, em lugar neutro, conveniente para as partes. Neste encontro, que durou duas horas, e tomando um bom café, houve a pergunta inicial de apontar claramente a queixa e apresentar claramente, a defesa das posições. Nesta conversa pessoal e amigável foi percebido que ambos tinham as melhores intenções e se chegou a um acordo, e a partir desse dia o conflito foi superado.

Para superar conflitos, numa das fazes iniciais, é preciso a intervenção de uma terceira parte, não identificada com nenhum dos envolvidos, ou uma das partes humildemente, procurar aproximação, o que foi feito com sucesso.

Casos como estes, restritos a famílias ou pessoas são relativamente fáceis de resolver, mas nem sempre possíveis, e são muito frequentes, originados por um desentendimento, por uma afirmação duvidosa, ou por uma atitude considerada ofensiva.

Observa-se a complexidade, e a amplitude, que tem o tema dos conflitos, e lamentavelmente, estamos vivenciando a intolerância, os personalismos, a decadência da política, das negociações, e da diplomacia na mediação dos conflitos, e na procura por soluções que não afetem a vida de milhões de pessoas neste nosso mundo pequeno e confuso.

Como os conflitos não são produto de fatores ambientais e externos, eles dependem do ser humano, e todos podem ser administrados e resolvidos. Isto depende do ser humano e recomendo o livro Sim, E Possível de William Ury, um interventor que age com criatividade na procura de soluções para conflitos internacionais.

Luis Gaj

Agosto 2026

8 colaborações de leitores

Contribuições recebidas

Textos enviados ao autor pelos leitores. As opiniões são de quem assina.

  1. Lejbus Czersnia

    Oi Luiz
    Magnífico trabalho!
    Concordo plenamente com tudo!
    Assim, como você citou a grande possibilidade de harmonia entre diversos povos, lembro da difícil situação que ocorre no Oriente Médio, onde o povo árabe é indocrinado, com uma contínua lavagem cerebral e, desde crianças são ensinadas a odiar e induzidas a matar os judeus. Nas escolas lhes apresentam o mapa da região, onde nem mencionam Israel. Acredito que são necessárias diversas gerações até que a verdade seja restabelecida!!

  2. Claudette

    Agradeço a sua atenção e desejo-lhe muito sucesso neste novo ensaio bem atual e que busca informar e propor soluções direcionadas para a tão preciosa paz entre os povos da Terra.

  3. Irene Nanni

    Querido Luiz, mais uma vez você me enviou um texto excelente, que li várias vezes, tal como eu fazia nos meus tempos de escola, quando eu relia para realmente captar as informações!
    Que bom que você continua sempre por dentro do que acontece nesse nosso mundo atual ! Espero que esteja bem de saúde, sempre enfrentando os desafios da vida ! Bjs e muito obrigada !😍

  4. Miriam M Menossi

    Por que brigam tanto??
    Atualmente somos mais de 8 bilhões de pessoas no Planeta e não existe ninguém igual a outro. Somos 8 bilhões de seres humanos com impressão digital própria. Consequentemente cada um é único e tem sua maneira de pensar.
    Sendo civilizados, aprendemos desde pequenos a respeitar a opinião do outro.
    Conflitos surgem, observemos as crianças, elas brigam de tapas e xingamentos e sem muita demora já estão às boas brincando novamente.
    As crianças agem com mais inteligência que os adultos que deixam de lado o diálogo e partem para as agressões.
    Sou portadora de um conflito com uma pessoa da família e chegamos às vias de fato sem resolver o problema que originou a contenda e cortamos relações.
    Resolvi a questão de outra maneira e estava em paz quando comecei a ter pesadelos horríveis com aquela pessoa e acordava na madrugada banhada de suor como se estivesse brigando. E era um pesadelo recorrente, acontecendo várias noites e de forma tão assustadora que tomei a decisão de procurar a pessoa para conversar. Não foi fácil, mas conseguimos ter uma boa conversa e hoje está tudo bem e sem resquícios daquele desentendimento.
    Conversando nos entendemos!!!
    Entre as nações os conflitos ocorrem ora por conquista de território, ora para obter acesso a recursos naturais, ora simplesmente para exercer poder. As disputas comerciais também causam bastante atritos entre os pares.
    Quando esses conflitos seguem aumentando acontecem as guerras. No momento foi contabilizado 120 guerras no mundo, contando conflitos entre países e facções armadas.
    Cadê o corpo diplomático desses países que não atuaram para amenizar os ânimos e evitar essas guerras??
    Nos tempos áureos da televisão brasileira tinha um programa humorístico com um esquete em que um sábio recebia as pessoas com problemas absurdos para receberem conselhos. O sábio ouvia calmamente, dizia algumas palavras e terminava dizendo:
    "A humanidade não se comportou"
    Não se comporta até hoje..

  5. ⁠J.F. Saporito

    Caro amigo Luis.
    Você fez uma regressão tão detalhada sobre os CONFLITOS latentes e reais da atualidade mundial envolvendo os MACROS interesses geopolíticos e econômicos que sobrou muito pouco para acrescentar nessa área. Talvez pudéssemos citar que lá no Canadá e Espanha existe uma questão separatista adormecida que como um vulcão ainda pode entrar em erupção qualquer dia.
    Assim, apenas como contribuição, vale considerar que do ponto de vista MICRO sociedade estamos vivendo uma época que o que não faltam são os mais diversos motivos para que no dia a dia os CONFLITOS generalizados ocupem espaço importante nas relações das famílias, religiões, politica, no conteúdo das leis, escolas, trânsito, trabalhistas, origem da nacionalidade, imigração, côr da pele, preferência sexual, no que é verdade ou mentira, na publicação de notícias pela imprensa, e na comunicação das participações nas mídias sociais. Enfim, dentro dessa micro sociedade de pessoas comuns, são muitos as narrativas que cada um poderia citar como participantes de CONFLITOS pessoais que lhe afetou direta ou indiretamente de diferentes formas, muitas vezes quebrando elos e amizades antigas.
    A humanidade chegou a um ponto de stress e individualidade, de que quase tudo é motivo para discordar, não com a apresentação de pontos de vista que ajudem a construir algo bom mas sim pela simples necessidade de ter razão naquilo que ele acredita ser verdade absoluta e que muitas vezes não é. O homem de hoje quer ter razão. De uma forma geral, os conflitos deixam as partes envolvidas completamente surdos e incapazes de ouvir de parte a parte o que o outro lado tem para dizer e que talvez fosse interessante prestar atenção.
    Forte abraço do Saporito.

  6. ⁠Elides

    Muito obrigada por me inteirar de tudo o que está acontecendo com as guerras desse nosso mundo pois, não consigo acompanhar de tudo .Muita tristeza é o que sinto.

  7. ⁠Dov Smaletz

    Sr. Luis, mais uma vez o Sr. nos presenteia com uma reflexão profunda e muito atual.
    Sua análise mostra que, seja entre nações, seja dentro das famílias, os conflitos tendem a se agravar quando o diálogo é adiado. Com o passar do tempo, as posições se tornam mais rígidas, os sentimentos se acumulam e a reconciliação passa a depender não apenas da negociação, mas também da capacidade de restaurar a confiança.
    Apesar de todas as dificuldades retratadas em seu texto, continuo acreditando que a mediação, a diplomacia e a boa vontade ainda são instrumentos capazes de transformar realidades.
    Espero não ser um sonhador solitário, mas alguém que ainda acredita no melhor da natureza humana. Abs

  8. ⁠Cristopher Derendinguer

    Caro Luiz,
    Interessante, e triste, a lista dos conflitos na sua postagem anterior. O da Nigéria/Biafra chocou o mundo na época, e motivou a fundação dos Médicos sem Fronteira. Hoje há pouca compaixão pelas vítimas de conflitos na África.
    Quero aproveitar essa sua página para expressar minha preocupação, quase frustração, com a atual situação de Israel.
    Depois do ataque do Hamas em 2023 houve uma onda de simpatia mundial por Israel. Entre muitas outras manifestações de apoio, a Torre Eiffel foi iluminada com a Estrela de David! Mas a reação extremamente violenta do governo Netanyahu, bombardeando e arrasando cidades inteiras da Faixa de Gaza, matando milhares de civis inocentes e causando uma crise humanitária de refugiados, fez a opinião pública mundial se virar contra Israel. Ao invés de Estrelas de David passou-se a ver bandeiras da Palestina em manifestações. E a França da Torre Eiffel reconheceu a Palestina em julho 2025. Pior: a simpatia pelas vítimas de Gaza deu ao antissemitismo mundial, sempre latente, um ar de legitimação para criticar abertamente judeus em geral. E pior ainda: os objetivos de toda essa violência militar não foram atingidos: Hamas e Hisbollah não foram destruídos, e a ameaça nuclear iraniana apenas adiada...

    A reação de Israel poderia ter sido outra, mais inteligente? Houve dentro de Israel quem discordasse da política de terra arrasada de Netanyahu: por ex. o ministro Gadi Eisenkot, ex “Chief of Staff” do exército, pediu demissão, criticando a tática do governo e alegando falta de estratégia de longo prazo no combate ao Hamas. Mais tarde falarei mais sobre essa pessoa.

    Em 2015 o então presidente Ruben Reuvlin alertou para o fosso que separa quatro grandes grupos distintos de Israel, cada um com tradições, mentalidades, imprensa, estações de TV e rádio, e sistemas educacionais próprios. Os grupos (que Ruben Reuvlin hoje chama de “tribos”) são:
    A. Israelenses seculares sionistas
    B. grupos nacionais religiosos
    C. grupos ultra religiosos (Haredim), e
    D. árabes israelenses.
    Israel é um país complicado: Essas “tribos” são uma mistura dos descendentes dos árabes e judeus presentes na época da fundação de Israel em 1947, dos descendentes dos 800 mil refugiados posteriormente expulsos dos países da África do Norte e do Oriente Médio, dos descendentes de um milhão de judeus russos que imigraram em duas levas nos anos 70 e 90 do século passado, dos judeus de todo mundo que fizeram alyiah (inclusive minha filha Mara), dos descendentes dos judeus etíopes trazidos em três pontes-aéreas (um voo com mais de 1.000 passageiros e dois nascimentos a bordo é o recorde mundial de passageiros transportados num avião), dos Drusos, das minorias cristãs, dos beduínos e dos Bahais. Israel abriga ainda mão de obra estrangeira, 300.000 pessoas, principalmente filipinos e africanos.
    Ufa! E no total são hoje 10 milhões de habitantes em uma área de metade do estado de Sergipe. Fora quem vive nos territórios ocupados, uns 700.000 israelenses e três milhões de palestinos, mais dois milhões de palestinos em Gaza.
    Mas Ruben Reuvlin temia que esses grupos, que viviam numa tolerância mutua, sob a proteção do governo diante da ameaça coletiva árabe sempre presente, apresentavam um potencial de conflito. E infelizmente esse conflito está eclodindo agora, principalmente depois do choque do ataque do Hamas em outubro de 2023. De repente, judeus em Israel não se sentem mais seguros “em casa”.

    Tradicionalmente, Israel foi governada por partidos de centro-esquerda, na maioria do grupo A, que sempre formavam uma tênue maioria entre os + ou – 12 partidos do Knesset (Parlamento). A partir do início do século, com a chegada de Netanyahu, essa tênue maioria passou para os grupos C e D, mais de direita, conservadora. Para se manter no poder, Netanyahu foi fazendo cada vez mais concessões aos extremistas desses partidos. Ministros como Itamar Ben Gvir, Bezalet Smotrich e Israel Katz apoiam abertamente a violência dos colonos da Cisjordânia contra palestinos. Esse governo também impediu até agora o recrutamento dos Haredim, ultra ortodoxos, para o exército, ignorando uma decisão do supremo tribunal de 2024.

    O noticiário de Israel que não chega ao Brasil mostra a atual divisão e é preocupante. Alguns exemplos:
    Como Viktor Orban tentou na Hungria, o governo faz tudo para enfraquecer o poder judiciário. No ano passado, milhares de israelenses foram às ruas semanas seguidas para protestar contra a legislação que tirava a independência do judiciário, e o governo teve de recuar.
    Duas grandes sinagogas Reform de Jerusalém foram invadidas e depredadas por ultra ortodoxos. (A corrente Reform do judaísmo não é reconhecida por eles).
    Há muitas semanas uma cafeteria de Jerusalém que abre aos sábados é sediada por ultra ortodoxos, que exigem seu fechamento nos shabats.
    Os mesmos Haredim protestam em massa contra os esforços do exército em recrutar membros de sua comunidade para servir no exército. Agridem fisicamente os PMs que vem prender os que recusam a servir, e também agridem os colegas de religião que aceitam servir para fazer a sua parte na defesa do país.
    Outro grupo que está cada vez mais violento é o dos colonos nos “Territórios”, como se designa a Cisjordânia ocupada. Agridem os moradores palestinos da vizinhança, depredam suas moradias e destroem suas plantações. Tem fervor religioso para reestabelecer o domínio judeu sobre toda Israel histórica, pouco se importando com o direito à existência dos palestinos que, afinal, também vivem por lá há séculos. Pequenos grupos já tentam estabelecer assentamentos em Gaza e na parte da Síria ocupada, contra o direito internacional, mas com apoio tácito dos ministros Smotrich e Katz. O exército faz “corpo mole” ao manter a ordem, e num incidente recente provocado por colonos houve a morte de um oficial do exército e de um palestino, além de feridos.
    O próprio exército tem problemas graves. A guerra em três frentes, Gaza, Líbano e Irã, além do controle da Cisjordânia, exige longo tempo de serviço dos reservistas, que faltam no seu trabalho e em suas famílias. Recentemente mais de 100 soldados se amotinaram, jogaram suas armas num monte, e deixaram o quartel.
    Nos últimos dois anos 100.000 israelenses deixaram o país, desgostosos e inseguros com a situação. Dentre eles muita gente qualificada.
    O isolamento internacional de Israel continua aumentando. A opinião pública dos Estados Unidos vai se voltando contra Israel. Trump está “perdendo a paciência” com Netanyahu. Nova York elegeu um prefeito muçulmano crítico de Israel, e diversos candidatos ao congresso americano nas próximas eleições defendem o fim do apoio a Israel. A Comissão Europeia acaba de criar sanções contra Israel pelo que ocorre nos territórios ocupados.
    Recentemente foram justamente os partidos religiosos que tiraram o apoio a Netanyahu, porque ele não estaria defendendo o suficiente a isenção do serviço militar dos ultra-ortodoxos, provocando novas eleições para outubro.

    E aí vejo uma possível melhora nas políticas interna e externa de Israel. Gadi Eisenkot, que mencionei mais acima, tem uma visão de longo prazo para o país, fala por ex. que não só os ultra ortodoxos devem prestar serviço militar, mas também os árabes devem fazer um serviço, não militar, mas social. É contra a construção de novos loteamentos para israelenses nos territórios. Seu novo partido, Yachad (União) já ultrapassa o Likud de Netanyahu nas pesquisas, e, juntamente com outros partidos de oposição, deve ganhar as eleições.
    Vamos torcer!

    https://www.youtube.com/watch?v=Owz0oaw4Vmk

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