Ensaio Número 25
Estamos entrando no ano de 2026 com esperanças renovadas, e achei que seria oportuno tentar enxergar a situação do momento, e as perspectivas que se apresentam.
O título do ensaio poderia ter sido Visão Helicóptero, seguindo orientação de meu antigo professor de estratégia, IGOR ANSOFF.
O foco estará no Brasil de hoje, e nas suas tendências, observando os sinais fracos atuais.
Em março de 2025 escrevi o ensaio número 9 sobre Desigualdades Sociais, e nada melhorou desde então, e me pergunto porque, identificado com o cidadão comum, e observando friamente, porque não conseguimos sair do atoleiro das desigualdades. Andando por São Paulo, vemos trânsitos intensos, na capital e também no interior, e podemos ter uma imagem de prosperidade, quando esta não é a verdade. A realidade é outra, ainda com crianças desnutridas, ainda com pobres e até miséria na periferia, ainda com favelas se multiplicando, ainda com crianças que não tem o que comer, famílias desestruturadas, com muitos filhos, vivendo do bolsa família, pais bandidos, presos ou viciados, e dependentes. Brasil de hoje, e nos vários governos que se sucederam nos últimos 50 anos, não melhorou, metade de sua população vive da bolsa família, ou da aposentadoria, e na informalidade ou no ócio.
Como explicar que outros países tiveram grande progresso, e o Brasil não conseguiu sair do lugar?
Uma das grandes causas, que seguramente impacta o pior resultado, é a corrupção que corre solta, e sem combate, em todos os níveis, federal, estadual e municipal, e contamina a sociedade civil, que para se sustentar, se adapta às exigências, e se torna cúmplice.
Mas se bem a corrupção pode ser um dos grandes problemas, não é o único. A estrutura do estado brasileiro, com as inúmeras mordomias, os penduricalhos, os maiores salários e benefícios em Brasília, a inexistência de verdadeiros partidos, defensores de interesses ideológicos, buscando beneficiar a sociedade, e que hoje fazem política, buscando vantagens pessoais, em lugar de serem identificados com o bem comum, e ainda a falta de investimentos em estrutura, fazem deste um pais não totalmente civilizado.
Podemos acrescentar ainda a existência de empresas estatais mal geridas e deficitárias. Como exemplo do tema da falta de estrutura, moramos na nossa casa durante 52 anos, a inda não temos esgoto e tão somente fossa, que contamina o lençol freático. Nossas ruas, dentro e fora do condomínio, não possuem calçadas, e onde as pessoas que caminham, são obrigadas a andar no leito dos veículos, correndo perigo. Isto são sinais de falta de civilidade, e de incompetência dos dirigentes, que nem percebem mais estas necessidades básicas da população.
Os problemas não são poucos, e a educação na escola pública e gratuita de má qualidade, é também sinal de incompetência, e direciona os avantajados para escolas particulares, e os pobres para as públicas, com diferenças na formação das crianças.
Na esfera política, esmagada a oposição e o executivo controlando a justiça e limitando o poder legislativo, caminhamos na direção do absolutismo e presidencialismo, concentrando poder decisório, limitando a imprensa, e escolhendo fieis seguidores para cargos que exigem os melhores em especialização e competência.
Assistindo o documentário “como se tornar um tirano” fica claro que, além de acreditar piamente que ele (o futuro tirano) é o único capaz de dirigir o país, ele precisa de um grupo, não muito grande, de fiéis seguidores e apoiadores, que também acreditem que ele (o futuro tirano) é a pessoa certa, e que o obedeçam prontamente em tudo que ele tomar iniciativa.
Este grupo pequeno seria colocado nos cargos principais sendo a maior característica a obediência, e seriam regiamente recompensados pela fidelidade. E com este grupo piloto, deverá construir o apoio das massas, usando todos os recursos disponíveis, e especialmente as redes sociais, a imprensa, e a propaganda, e até a demagogia, para obter o apoio necessário com promessas que unifiquem a sua sustentação.
Em artigo de Vilma Gryzsinski, na revista Veja de 21/11 para caracterizar se um pais é atrasado ou adiantado, é suficiente alguns sintomas como por exemplo conseguir atravessar a rua sem preocupação com sinal verde, sem temer que um veículo desrespeite o sinal, ou observar que os ciclistas respeitam os que sinalizam paradas, nos dias em que o caminho dos ciclistas é monitorado, e sinalizado, como sinal de respeito e obediência. A própria falta de calçadas seria um sintoma de atraso, assim como os moradores de rua, e o número de favelados todos muitos sintomas caracterizam um país fracassado, quando a sua população não tem melhora no seu nível de vida. Outro sintoma do fracasso é a falta de rede de esgoto em grande parte do território nacional, ou falta de infraestrutura.
O Brasil cresceu irrisoriamente, comparado a outros países como Singapura, Coréia do Sul e a própria China nos últimos 50 anos e com o argumento de combater a pobreza, criou um sistema assistencialista, e deixou de investir nas pessoas, e na infraestrutura, e no progresso. Metade da população vive dependendo de auxilio e trabalhadores ficam na informalidade, para não pagar aposentadoria, porque atingindo 65 anos receberão mesmo sem ter contribuído, um salário mínimo de aposentado
De todos os males do subdesenvolvimento, o mais grave, é a pobreza extrema e a dependência de auxilio que provoca acomodação, ausência da força possível de trabalho produtivo, e pessoas ociosas, e não produtivas representam um custo elevado, e deixam de produzir riqueza para distribuir. Menos produtividade, menos gente trabalhando, mais assistencialismo, mais acomodação, formam um círculo vicioso, e o país deixa de investir no que mais precisa, que é investir no futuro, numa educação aprimorada, e se prezar por formar os mais competentes formandos, educados para a vida.
E se for gratuita, de qualidade superior às das escolas particulares e pagas. E preparando para o mundo e seus desafios. Junto com a pobreza, o flagelo da desnutrição infantil, sendo cientificamente provado que crianças mal alimentadas nos primeiros anos de idade, serão crianças com dificuldade em absorver conhecimentos escolares, e também dificuldade no esporte em especial no futebol.
Estamos no ano de 2026, possuímos uma imagem centrada nos extratos da população, e constatamos que as desigualdades sociais permanecem. e até pioram, em todos os últimos governos que se sucederam. Nossos líderes tem uma excelente capacidade de se articular, e navegar em águas turbulentas, mas uma incapacidade lamentável, em possuir imagem de um futuro desejável, que somente será atingido com uma visão de médio e longo prazo.
Nossos líderes se concentram em ganhar eleições, e pautam negativamente em visualizar, sonhar e desejar um mundo melhor para todo o país. Assistimos a um sistema judicial deturpado e politizado, e uma falta crônica de verdadeiros partidos políticos, e um número elevadíssimo de partidos que possuem em comum, a defesa de seus próprios interesses, assistimos também a uma politica externa identificada com ditaduras, como a Venezuela, Cuba, Iran, China e Rússia e ainda assistimos ao poder executivo preocupado e atuando, para se perenizar no poder, sem pensar como estadistas. e preocupados com o imediatismo. E alocados nas próximas eleições.
Na economia, assistimos à falta de planejamento fiscal cuidadoso, e ao desmando na gastança do dinheiro público, quando o correto seria enxugar a máquina burocrática e corporativa, instalada em Brasília, a ilha da fantasia.
Com todo este cenário e com os Sinais Fracos, hoje não tão fracos, e se consolidando com um governo que premia fidelidade, e não preza pela qualidade, onde os Correio são um caso de empresa estatal altamente deficitária e falida, que há muito deveria ter sido privatizada, onde um banco Master aparece apoiado por governo estatal subsidiando e emprestando, para operações de altíssimo risco, e onde políticos apoiaram um modelo de gestão irresponsável, e um escândalo de desvios bilionários.
Com este panorama visto da ponte, quando assistimos ao livro do brilhante escritor argentino Jorge Luis Borges que escreveu um livro O tamanho de minha esperança, podemos imitá-lo dizendo O tamanho de minha desesperança (comentado e citado por Bolívar Lamounier)
Com foco na estratégia, e com os cenários que se apresentam, que expectativas podem ser vislumbradas, num ano que será muito importante para o futuro. Então quais seriam os caminhos para reduzir as desigualdades vergonhosas de um pais privilegiado pela natureza, que possui recursos hídricos, minerais e uma região amazônica única no mundo e mesmo assim, não consegue reduzir as desigualdades, eliminar a pobreza extrema, reduzir a nível aceitável a insegurança, crescente em todo o território e a bandidagem, e melhorar o nível de vida da população.
Somente consigo perceber um motivo e um direcionamento.
O motivo é a péssima gestão dos recursos, a existência de uma ilha da fantasia onde os donos do país distribuem benesses para seus seguidores e apoiadores.
A péssima gestão se reflete na pobreza, na péssima escola pública, na marginalidade e no narcotráfico.
Direcionar para mudança exige metanoia, ou mudança de mentalidade, abertura para perceber os verdadeiros problemas, e enfrentá-los. Esta mudança de mentalidade, e de cultura, não é fácil de se realizar, mas é possível, sim. e se inicia com a insatisfação, e revolta por ver como se gasta mal, como existe corrupção em todos os níveis, e como se tolera e se acomoda, sem reagir aqueles que só pensam no seu dia a dia, e mesmo assistindo pensam “e eu com isso”. É preciso que a mobilização da sociedade, com pessoas competentes e honestas, que sonhem com uma realidade diferente, esta nova realidade será atingível.
Com todo o cenário atual quais seriam as perspectivas para este ano de 2026?
O Brasil é um transatlântico difícil de conduzir para uma rota diferenciada da atual, onde forças poderosas agem contra as mudanças necessárias, e onde a sociedade permanece passiva.
Cenário 1- Eleição com Lula na vantagem contra um oponente fraco
Cenário 2- Surgimento de uma figura carismática e competente com uma postura nova, não extrema, mudar os destinos do país.
Cenário 3. Mais 4 anos de estagnação e até radicalismo maior conduzindo a uma ditadura.
Pensando em possibilidades, a eleição novamente de Lula moderado teria uns 30 per cento de chance, a opção 2 com surgimento de uma figura importante e que ganhe a eleição, hoje difícil vislumbrar teria 10 per cento de acontecer e a terceira opção de uma maior radicalização teria, em função das tendências, maior chance de ocorrer, o que tornaria o pais de emigrantes, fuga de capitais e de pessoas insatisfeitas e preocupadas.
Temos sim esperança, e somente construiremos um país diferente, e desenvolvido, se sonhamos com ele, e transformamos o sonho em realidade, pensar a médio prazo, e mobilizar os justos, e honestos para esta cruzada. Mas como ninguém é capaz de prever o futuro com segurança, o mais correto é dizer que a única certeza, é que o futuro imaginado não irá acontecer, e que os cenários imprevisíveis, são mais importantes que os imaginados
Falando sobre estatísticas, elas aceitam todos os números e as imagens desejadas. Como vimos no caso do pleno emprego no país, ele inclui os subempregados como trabalhando, mesmo fazendo bico e na informalidade, e deixa de considerar aos milhões que não trabalham e estão desempregados, e recebem a bolsa família.
A seguir alguns dados para se pensar: 2024 tinha 23 por cento da população ou 49 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza, vivendo com 23 Reais por dia, e o número de miseráveis vivendo com 7,27 por dia era de 3,5 per cento da população ou 7,4 milhões de brasileiros. 50 milhões ou um quarto da população na vulnerabilidade. Funcionários com carteira assinada eram em outubro de menos de 50 milhões num contingente de 103 milhões e grande parte deles vivia de bicos na informalidade.
Outros números para se pensar
21% ou 48 milhões empresários, empreendedores e funcionários
6% ou12 milhões de funcionários públicos.
19% ou 39 milhões de pensionistas, aposentados e assistidos
26% ou 53 milhões de crianças e adolescentes
28% 56 milhões no programa bolsa família
Resumindo 27% trabalham e o restante ou são menores, ou aposentados ou recebendo bolsa família
Sem produzir riqueza e sem educação de qualidade, infelizmente as desigualdades se encontram em estado crônico, sem perspectiva.
Luis Gaj
Janeiro 2026
Cristina Valavicius:
Querido sr. Luis, já estava sentindo falta de suas publicações. E essa, é mesmo de chorar. Quanto mais acompanho notícias, redes sociais, mais me convenço que nosso país está perdido, sem perspectivas próximas de se recuperar. São tantas fakenews fazendo lavagem cerebral dessa população que acredita em toda mentira que ouve,…. que é uma ilusão acreditar que esse país voltará a crescer e se desenvolver. Mesmo assim, e apesar de tudo, desejo ao sr. Família um excelente ano. Que seja repleto de saúde, fortalecido com laços de amor e amizade junto a aqueles que amamos.
– Marcelo Gutglas:
Bela análise Luís. Triste realidade. Tem que de alguma forma mudar. nas eleições. Trágico se Lula ganhar.
Abraço
– Lebjus Ceszrnia:
Oi Luiz
Parabéns pelo magnífico estudo!! Claro, conciso e objetivo!! Não há mais nada a acrescentar! Você apresentou muito bem a situação atual em que estamos submetidos a um governo corrupto, desonesto e demagogo.
-Irene Nani:
Pois é Luiz, o cenário é desanimador! Nós somos uma gota d’água num oceano imenso!!!
– Miriam Menossi:
“Quando o velho mundo já morreu e o novo ainda luta para nascer, surgem os monstros”
Gramsci (filósofo italiano)
Sim, a desigualdade brasileira continua, até aumentou, e não houve políticas públicas que indicasse um início de melhora.
Sim, os maus políticos que elegemos em nenhum momento pensam no país e sim em si próprios.
E porque elegemos pessoas que não tem capacidade de enxergar um país mais próspero, nas culto, mais igual??
Encaramos eleição de uma forma errada, na base do compadrio e aí está o resultado.
É fato que a estrutura do estado brasileiro está desorganizada de tal modo que a maior fatia do orçamento fica dividida entre eles na forma de emendas, não sobrando o suficiente para os Ministérios principais para a população que são a Saúde, a Educação e a Segurança que constam como prioritários na Constituição.
Curioso notar que os políticos atuais são de uma geração que não tiveram Educação Moral e Cívica no currículo escolar e, talvez, nem saibam o que significa ser cidadão, cuja missão é servir à Pátria, inclusive ,fazendo juramento diante a bandeira do Brasil.
Luis colocou 3 cenários para as eleições deste ano. Vamos ficar todos juntos com o 2° cenário e pensar positivo e coletivamente que surgirá a pessoal ideal para comandar este enorme transatlântico que se chama Brasil.
Boa sorte para todos nós!!!
J.F..Saporito:
A sociedade brasileira está adaptada a tudo de ruim que integra o dia a dia das pessoas em geral. Nada mais nos incomoda, por pior que seja. Estamos aceitando tudo, passivamente. O crime hediondo de hoje com certeza vai ser menos cruel do que o que vai ser praticado amanhã.
As denúncias de hoje de corrupção no meio político e privado irão ocupar os espaços da CNN e Globo durante um certo tempo, provocar acaloradas discussões com os que pensam a esquerda e a direita, mas rapidamente vão ser substituídas por novas denúncias ainda piores do que as anteriores. Nas redes sociais, milhares de pessoas de forma confortável em suas casas ou em rodas de amigos colocam comentários que não mudaram uma vírgula dos acontecimentos. No YouTube muitos jornalistas, políticos e blogueiros colocam vídeos apelativos com verdades, meias verdades e mentiras, cujo objetivo é atrair atenção, se tornarem conhecidos e ganhar likes, seguidores e votos.
Como parte da comédia, o legislativo tenta colecionar assinaturas que sejam suficientes para aprovar uma nova CPMI cuja finalidade é apenas criar um palco para discursos inflamados, apenas visando demonstrar protagonismo e angariar votos para as próximas eleições.
As antigas e poderosas associações como Fiesp, OAB e Febraban entre outras, e até mesmo o clero através da CNBB em um país dito católico, estão silenciosos no ostracismo como se nada do que está acontecendo lhes incomoda.
O STF considerado a última esperança racional para colocar um mínimo de ordem jurídica na bagunça constituída, perdeu credibilidade e em várias situações é considerado como potencial agente de malfeitos.
Olhando o panorama de cima da ponte vemos um enorme rio transbordando água por todos os lados e as pessoas deste país se afogando lentamente. As autoridades constituídas por si só, não vão salvar aqueles que estão dentro do rio se afogando.
As explicações que o professor Luis Gaj questiona em seu ensaio Panorama Visto da Ponte estão ligadas diretamente ao sentido da palavra ENIGMA. Sim, essa é a palavra perfeita para tentar definir o povo brasileiro e porque as coisas estão como estão. Quando é impossível compreender alguma coisa, estamos diante de um Enigma. O povo brasileiro é sim um Enigma pois nunca age de forma coesa, disciplinada e foco na defesa de seus interesses, fazendo valer os seus direitos para tentar influenciar e modificar determinadas situações que estão ocorrendo em prejuízo da maioria. Porque somos inertes, porque somos covardes, porque nunca nos movemos coletivamente contra as arbitrariedades, é para mim um Enigma.
Quem sabe um dia qualquer surja mais um desses assuntos insuportáveis que costumam incomodar a todos e as pessoas resolvam transformá-lo em o dia D. Sou cético, mas às vezes milagres acontecem.
Estamos iniciando um ano difícil quer seja por eleições com potencial de gerar conflitos, quer seja por políticas públicas mal direcionadas com o único objetivo de ganhar eleição às custas dos menos favorecidos ao manter e ampliar programas sociais insolúveis, quer seja pela escalada da violência, insegurança e forte envolvimento das facções criminosas em atividades públicas e privadas.

